A cidade de Parnaíba, no litoral do Piauí, está no centro de um projeto de R$ 2,5 milhões que busca ampliar a produção de jaborandi no Brasil e fortalecer o fornecimento de uma matéria-prima utilizada pela indústria farmacêutica internacional. É das folhas da planta que se extrai a pilocarpina, substância empregada na fabricação de medicamentos para diferentes tratamentos.
A iniciativa foi contratada por meio de parceria entre a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O projeto acrescenta pesquisa e inovação a uma cadeia produtiva já instalada no município que exporta para mais de 80 países. A empresa Centroflora mantém uma unidade farmoquímica em Parnaíba desde 2003 e também possui uma área destinada ao cultivo do jaborandi.
Segundo Daniel Kager, gerente da Fazenda Centroflora, a produção anual de jaborandi fica entre 300 e 500 toneladas. Além do Piauí, Pará e Maranhão são os principais estados fornecedores da matéria-prima, formando uma cadeia que envolve diferentes trabalhadores e atividades.
Em Parnaíba, o jaborandi foi adaptado a condições diferentes das encontradas em suas áreas naturais de ocorrência. O cultivo utiliza sombreamento, irrigação e outros cuidados para controlar fatores que interferem no desenvolvimento da planta.
É também no município que parte dessa matéria-prima ganha valor. Depois da colheita, as folhas são processadas para a extração da pilocarpina, que passa por controle de qualidade antes de seguir para a indústria farmacêutica.
Segundo a Centroflora, a pilocarpina produzida pela empresa possui registros para comercialização em mercados como Estados Unidos, China, Japão, Coreia do Sul e países europeus. “Essa atividade gera emprego, renda e impostos e movimenta uma cadeia produtiva que pode criar novos negócios. Existe ainda a possibilidade de o conhecimento desenvolvido a partir dessa matéria-prima contribuir para novos medicamentos”, afirma Kager.
Pesquisa busca produzir mais
É nessa etapa que entra o trabalho coordenado pelo Instituto Senai de Inovação em Química Verde. A pesquisa procura entender quais condições favorecem a produção de pilocarpina pelo jaborandi e como esse conhecimento pode tornar o cultivo mais eficiente.
Os estudos já identificaram que a quantidade da substância presente nas folhas varia de acordo com fatores como idade da planta, época do ano, período após a poda, quantidade de folhas produzidas e região de cultivo. As plantas mais maduras apresentaram, de forma consistente, maiores teores de pilocarpina.
“Os resultados mostraram que a produção de pilocarpina é influenciada por um conjunto de fatores ambientais e biológicos. Observamos diferenças importantes entre as regiões avaliadas e uma influência da sazonalidade”, explica Giovanni Bressiani Pedroso, coordenador de Pesquisa do Instituto Senai de Inovação em Química Verde.
Os pesquisadores também investigam a possível relação entre os microrganismos encontrados no solo próximo às raízes e os níveis de pilocarpina. O trabalho combina química, biologia molecular e análise de dados para compreender melhor os fatores que interferem na produção do composto.
“O projeto gerou informações que podem apoiar decisões futuras sobre manejo, seleção de áreas e planejamento da produção, mas a definição de um potencial de expansão depende de avaliações adicionais, incluindo produtividade por área, disponibilidade de áreas adequadas, aspectos ambientais, capacidade de processamento e viabilidade econômica”, ressalta o pesquisador.
Biodiversidade com valor agregado
A importância econômica do projeto está justamente em tentar produzir mais e melhor a partir de uma espécie da biodiversidade brasileira que já possui mercado. No caso de Parnaíba, a cadeia não se limita ao plantio. O município reúne cultivo, pesquisa, processamento e controle de qualidade de uma matéria-prima destinada à indústria farmacêutica. “É uma oportunidade de transformar a biodiversidade em desenvolvimento econômico de forma sustentável”, afirma Pedroso.
A matéria-prima é obtida tanto em áreas cultivadas quanto pelo extrativismo sustentável em locais onde a espécie ocorre naturalmente. O cultivo organizado amplia as fontes de fornecimento para a indústria e reduz a dependência exclusiva da coleta em populações naturais.
Com o investimento de R$ 2,5 milhões em pesquisa, a estratégia agora é aumentar a eficiência dessa cadeia. Para Parnaíba, isso significa ampliar o valor gerado por uma atividade que começa no campo piauiense, passa pela ciência e pelo processamento industrial e chega ao mercado internacional de medicamentos.
Da planta ao medicamento
A pilocarpina é uma substância com diferentes aplicações na medicina. Na oftalmologia, é utilizada em medicamentos para reduzir a pressão dentro dos olhos em pacientes com glaucoma ou hipertensão ocular. Algumas formulações também são usadas no tratamento da presbiopia, a dificuldade de enxergar de perto que geralmente aparece com o avanço da idade.
A substância também pode ser administrada por via oral para estimular as glândulas salivares. É utilizada no tratamento da boca seca provocada pela radioterapia em pacientes com câncer de cabeça e pescoço e em pessoas com síndrome de Sjögren, doença autoimune que pode comprometer as glândulas responsáveis pela produção de lágrimas e saliva.
Essas diferentes aplicações ajudam a explicar o valor econômico de uma cadeia que começa com uma planta brasileira e chega à fabricação de medicamentos destinados a mercados internacionais.
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